Acredito que a arte começa, muitas vezes, naquilo que não queremos perder.
Uma lembrança, uma imagem, um objeto, um tecido, uma história. Coisas que atravessam o tempo e continuam carregando alguma coisa de quem passou por elas.
É isso que me interessa.
Sempre tive uma relação muito forte com a matéria. Com as marcas, as texturas, as cores e, principalmente, com aquilo que elas podem revelar. Um pedaço de tecido pode guardar uma história. Uma tatuagem pode carregar uma memória. Uma alegoria pode transformar uma narrativa em imagem. Uma pintura pode juntar fragmentos de coisas que, à primeira vista, não teriam nenhuma relação.
Talvez seja por isso que nunca consegui me limitar a uma única linguagem.
A pintura, o desenho, a tatuagem, a cenografia e o carnaval fazem parte de momentos diferentes da minha trajetória, mas, no fundo, todos eles passam pela mesma necessidade: dar forma a uma ideia e transformar aquilo que existe dentro de mim em algo que possa ser visto, tocado ou experimentado por outra pessoa.
Minha formação e minha trajetória foram construídas também no contato com a cultura popular, com o carnaval e com as artes do espetáculo. Esses universos me ensinaram a olhar para a imagem não apenas como algo para ser contemplado, mas como algo capaz de contar histórias, criar atmosferas e provocar sentimentos.
Hoje, minha pesquisa se aproxima cada vez mais da memória, do corpo, da identidade e da passagem do tempo.
Gosto de trabalhar com aquilo que já carrega alguma história e encontrar uma maneira de fazê-lo dizer outra coisa.
Não me interessa apenas criar uma imagem bonita.
Interessa-me descobrir o que existe por trás dela, de onde ela vem, o que ela representa e o que acontece quando ela encontra o olhar de outra pessoa.
É nesse espaço, entre memória e invenção, entre o que recebemos e aquilo que transformamos, que encontro minha maneira de fazer arte.
Transformar memória em matéria.
Transformar matéria em linguagem.